- 04/08/2022
- postado por Abraget
- Categoria Notícias
Confira a íntegra de artigo assinado por Xisto Vieira, presidente da Abraget, publicado no Poder360, em 4 de agosto de 2022.
O crescimento das energias renováveis no Brasil sempre teve como parte do discurso, além do benefício de não emissão de CO2, o aspecto da complementariedade com as fontes hidrelétricas. Enquanto no período seco (abril a setembro) as hidrelétricas naturalmente geram menos, sendo compensadas pela maior potência de ventos para eólicas), no período úmido os papéis são invertidos, com as hidrelétricas trabalhando mais.
Esta pseudocomplementariedade é discutível, afinal as sequências hidrológicas e de ventos são mutáveis e não foram acertadas com São Pedro nem com Eólo, o Deus dos ventos.
No entanto, pouco se fala, atualmente, sobre outro tipo de complementariedade que existe na realidade, independente dos deuses do clima. Ela ocorre entre as hidrelétricas e as termelétricas em seu papel de garantir a segurança e a resiliência sistêmica do abastecimento ao País. Trata-se do suporte que o setor elétrico tem usado inclusive como solução para a expansão, ao longo dos anos, das fontes renováveis (eólica e solar). Sim, porque essas fontes, pela sua natural intermitência, não dispõem de características – como inércia, controladores adequados de frequência e tensão – necessárias ao funcionamento do sistema com a devida segurança e resiliência.
As hidrelétricas são as melhores usinas do sistema para o Controle Automático de Geração, que considera a regulação secundária da frequência. São também ótimas para auxiliar na regulação primária, através de suas inércias e reservas terciárias como forma de reserva girante. Inclusive tais usinas, com a mudança da estrutura comercial do modelo do setor elétrico brasileiro, deveriam ser remuneradas pela prestação de tais serviços.
As termelétricas, por sua vez, complementam estas características, através de fornecimento de inércia, controle de frequência e tensão de última geração, além de garantir a segurança energética, elétrica e a resiliência do sistema, mesmo quando há situações hidrológicas inadequadas, como ocorreu em 2021.
Essa complementariedade tem sido inclusive a mola de amortecimento dos efeitos da guerra na Ucrânia em nosso sistema elétrico. Enquanto a Europa, que não possui hidrelétricas de porte e conta com o gás russo para acionar térmicas, precisa agora usar usinas a carvão para garantir o funcionamento de um sistema recheado pelas fontes eólicas e solares, o Brasil tem outra dinâmica graças à sua base de fonte hídrica.
Com relação à esta hiper importante complementariedade, pode-se verificar claramente que o sistema necessita de um certo montante de térmicas inflexíveis, para garantir que, mesmo em situações hidrológicas desfavoráveis, haja energia hidráulica nos reservatórios, no sentido de permitir que as hidrelétricas continuem a realizar as funções de atendimento a intermitências, de controle de frequência e tensão, fatores esses fundamentais à adequacidade e segurança do sistema
Como podemos contar com as hidrelétricas e com níveis de afluência que permitem usar suas atribuições plenas, os impactos da Europa têm pouca repercussão no nosso sistema. Trata-se, dessa forma, da otimização complementar da segurança sustentável.
E vejam que interessante: com esta dupla de fontes na proporção correta na matriz elétrica é possível aumentar de forma mais substancial o nível de penetração das renováveis, e, principalmente, de forma econômica. Encher o sistema com linhas de transmissão que operem com carregamentos pífios e com compensadores síncronos em números excessivos é solução efetivamente fora de qualquer matriz otimizada, por ser anti-econômica.
Como as térmicas, seja a carvão ou a gás natural, têm aspectos fundamentais à segurança eletroenergética, essas plantas tendem a ser mais modernizadas, não só através de otimizações nos novos projetos de unidades geradoras, a curto prazo, como na implementação de tecnologias de captura de CO2 e na utilização de hidrogênio (H2), a médio e longo prazo. Tudo isto para que as térmicas, além de suas funções de segurança, também participem dos esforços para resolver o problema das emissões dos Gases de Efeito Estuda (GEE’s).
Logo, pelo ponto de vista da evolução da tecnologia, dizer que as térmicas vão interromper a transição não seria sensato. Isto porque, uma coisa tem que ficar muito clara: não existe transição energética sem segurança e resiliência, que será, exatamente, o papel das usinas termelétricas.
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